Testosterona virou assunto de rede social, e o roteiro se repete: uma lista de sintomas genéricos, um exame pedido por conta própria, um valor no limite inferior e uma prescrição. O problema é que quase todos os sintomas dessa lista têm outras causas mais frequentes, e várias delas são mais fáceis de tratar.
Os sintomas que sugerem
Alguns são relativamente específicos:
- Queda de libido consistente, não situacional.
- Disfunção erétil, sobretudo com perda de ereções matinais.
- Perda de massa muscular e de força, apesar de treino mantido.
- Redução de pelos corporais e da barba, lentidão de crescimento.
- Redução de volume testicular.
- Ondas de calor: incomum, mas fortemente sugestivo quando presente.
Outros são inespecíficos e aparecem em dezenas de quadros:
- Cansaço e falta de disposição.
- Humor deprimido, irritabilidade.
- Dificuldade de concentração.
- Ganho de gordura, sobretudo abdominal.
- Sono ruim.
A distinção importa. Um quadro montado só sobre a segunda lista quase nunca é hipogonadismo.
O que precisa ser afastado antes
Estas condições produzem exatamente a segunda lista, são mais comuns que hipogonadismo e algumas delas derrubam a testosterona por si só, de modo que o exame baixo é consequência, não causa:
Apneia obstrutiva do sono. Frequente, subdiagnosticada, e reduz testosterona. Tratar a apneia costuma elevar o hormônio sem repor nada.
Obesidade. O tecido adiposo converte testosterona em estradiol e reduz a proteína transportadora. Perda de peso significativa eleva a testosterona total em boa parte dos casos.
Hipotireoidismo. Cansaço, ganho de peso, humor, e se resolve tratando a tireoide.
Anemia e deficiência de ferro.
Depressão.
Diabetes e resistência à insulina.
Medicações em uso: opioides, corticoide, alguns antidepressivos, finasterida.
Álcool e privação crônica de sono.
O que confirma
O diagnóstico de hipogonadismo exige sintoma compatível somado a testosterona total baixa em duas dosagens, colhidas:
- Em jejum e pela manhã, idealmente antes das 10h: o valor cai ao longo do dia.
- Em dias diferentes.
- Fora de doença aguda.
Quando o valor fica na zona limítrofe, ou quando há obesidade, diabetes ou uso de medicação que altere a proteína transportadora, a testosterona total engana, e é preciso a testosterona livre, calculada a partir de SHBG e albumina ou medida por método adequado.
Confirmado o valor baixo, a investigação não acaba: falta descobrir de onde vem. LH e FSH separam a origem testicular da origem central, e origem central pede investigação da hipófise, incluindo prolactina. Isso muda o tratamento e, em alguns casos, revela um diagnóstico que não tem nada a ver com reposição.
Sobre repor
Reposição de testosterona é tratamento estabelecido, com indicação clara, e com consequências que precisam estar na mesa antes da primeira aplicação: efeito sobre fertilidade, sobre a produção própria do hormônio, sobre hematócrito e próstata, e a necessidade de acompanhamento laboratorial regular.
Também precisa estar na mesa a alternativa: em uma parcela relevante dos casos, tratar a causa reversível resolve o quadro sem reposição nenhuma.
Essa conversa é o conteúdo da consulta de reposição hormonal, e vale saber qual especialidade conduz o quê antes de marcar.
Este texto é informativo e não substitui consulta. Reposição hormonal exige prescrição e acompanhamento médico.
Perguntas frequentes
- 01
Um exame baixo já fecha o diagnóstico?
Não. A testosterona varia ao longo do dia e entre dias, e cai temporariamente em doença aguda, privação de sono, estresse e obesidade. O diagnóstico exige sintoma compatível mais duas dosagens em jejum, pela manhã, em dias diferentes, e a investigação da causa.
- 02
Testosterona baixa dá cansaço?
Pode dar. Mas cansaço é um sintoma tão inespecífico que atribuí-lo à testosterona sem afastar apneia do sono, anemia, hipotireoidismo, depressão e deficiência de ferro ou vitamina D é o erro mais comum dessa investigação, e o que faz alguém repor hormônio por anos sem melhorar do que o incomodava.
- 03
A partir de que idade cai?
A queda fisiológica é gradual e começa por volta dos 30 a 40 anos, na ordem de cerca de 1% ao ano. Queda gradual dentro da faixa normal não é doença. O que exige investigação é valor abaixo da referência com sintoma, em qualquer idade.
Na coluna da Veja Rio
O Dr. Fabiano escreveu sobre este assunto na coluna semanal que assina na Veja Rio.
