Um check-up serve para achar o que ainda dá para mudar. Medido por esse critério, o painel padrão chega tarde: quase tudo que ele contém só se altera quando o processo já está avançado.
O que se altera primeiro, e quase nunca é medido
Insulina de jejum. É o primeiro parâmetro do eixo glicêmico a mudar. Junto com a glicemia, permite calcular o HOMA-IR e enxergar resistência à insulina anos antes de qualquer glicemia alterada.
Circunferência abdominal. Custa uma fita métrica e prevê risco metabólico melhor do que o peso. Não aparece na maioria dos check-ups porque não é exame de laboratório.
Composição corporal. Massa magra e gordura, separadas. Duas pessoas com o mesmo peso e a mesma idade podem estar em situações metabólicas opostas, e nenhum exame de sangue mostra isso.
Relação triglicerídeos / HDL. Os dois valores costumam estar no exame; a razão entre eles, quase nunca calculada, é um marcador prático de resistência à insulina.
Hemoglobina glicada. Mostra a média glicêmica dos últimos dois a três meses, e detecta alteração que a glicemia de jejum isolada perde.
O painel que faz sentido
Metabolismo da glicose: glicemia de jejum, insulina de jejum com HOMA-IR, hemoglobina glicada.
Lipídios: colesterol total e frações, triglicerídeos, e, quando o risco cardiovascular está em discussão, ApoB e Lp(a). A ApoB conta o número de partículas aterogênicas, que é mais informativo que o LDL calculado em quem tem triglicerídeos altos. A Lp(a) é determinada geneticamente, se dosa uma vez na vida e muda o cálculo de risco de quem tem histórico familiar de evento cardiovascular precoce.
Fígado: TGO, TGP, GGT. Enzimas discretamente alteradas em quem não bebe costumam ser a primeira pista de gordura hepática, que anda junto com a gordura visceral.
Rim: creatinina com taxa de filtração estimada, e relação albumina/creatinina urinária. Esta última é subutilizada e detecta lesão renal precoce em diabetes e hipertensão.
Tireoide: TSH, com T4 livre e anti-TPO conforme o quadro. Vale entender o que fazer quando o TSH volta alterado.
Inflamação: PCR ultrassensível.
Vitaminas e minerais: vitamina D, B12, sobretudo em uso de metformina ou dieta restritiva, ferritina com saturação de transferrina.
Hormônios sexuais, quando há queixa: testosterona total e livre em homens; avaliação conforme fase do ciclo ou da transição em mulheres.
Ácido úrico, que acompanha resistência à insulina com mais frequência do que se supõe.
O que não é exame de sangue e pesa mais que vários
Pressão arterial, medida direito e mais de uma vez.
Rastreio de apneia do sono por questionário, em quem ronca, acorda cansado ou tem sonolência diurna. A apneia derruba testosterona, piora resistência à insulina e sabota perda de peso, e é subdiagnosticada de forma sistemática.
Força. Força de preensão palmar é um dos preditores mais robustos de desfecho em longo prazo, e mede-se com um dinamômetro em trinta segundos.
O erro dos dois lados
Pedir de menos é o mais comum: um painel que só se altera quando a fase reversível já passou.
Pedir de mais é o oposto e também tem custo. Exame sem pergunta clínica por trás gera achado incidental, que gera outro exame, que gera ansiedade, e nada disso muda conduta.
O critério é simples e vale para cada linha do pedido: este resultado mudaria alguma coisa no que vamos fazer? Se não muda, não é rastreio, é curiosidade cara.
Essa é a lógica do acompanhamento do Programa Serfaty e da avaliação em cardiometabolismo na Serfaty Clínicas.
Este texto é informativo e não substitui consulta. Exames devem ser pedidos e interpretados por médico.
Perguntas frequentes
- 01
O check-up da empresa não cobre isso?
Cobre parte. O painel padrão costuma trazer glicemia de jejum, colesterol total e frações e função hepática e renal: o que é útil, mas é o conjunto que se altera por último. Insulina de jejum, hemoglobina glicada, circunferência abdominal e composição corporal raramente entram, e são justamente os que mudam cedo.
- 02
De quanto em quanto tempo repetir?
Depende do que se encontrou. Sem alterações e sem fator de risco, anual é razoável. Com alteração em acompanhamento ou tratamento em curso, o intervalo é menor e definido pelo que se está corrigindo, e há exames, como o TSH após mudança de dose, com prazo próprio.
- 03
Preciso estar em jejum?
Para glicemia e insulina, sim. Perfil lipídico hoje pode ser colhido sem jejum na maioria das situações, mas se a coleta é a mesma, o jejum simplifica. O que importa mais que o jejum é repetir sempre nas mesmas condições, para que os valores sejam comparáveis.
